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03
Mar14

Em cada esquina um amigo

por oladolunar


Já não.

Tirei estes dias para analisar o que aconteceu. Fui ao parque com o meu filho. Brincámos horas debaixo de um Sol que não quis aparecer enquanto estive nos EUA. Nem na California, nem na Florida, em parte alguma. Apenas um manto branco pelo qual o nosso autocarro deslizava e comia milhas atrás de milhas. Por isso, aproveitámos. Agora chove. Também escrevi outras coisas porque nem de só de celeuma vive o espírito. Poesia, sobretudo. Pensei na vida, nos Moonspell e meti na fila este blog e todas as reacções ao mesmo. As boas, as más, as péssimas porque tudo é aprendizagem. Noutras circunstâncias, talvez fosse este o último post, mas isso não irá acontecer. O facto do meu post sobre o Fernando Tordo se ter tornado objecto de acesa discussão em muitos meios, e o de ter posto muita boa e má gente a pensar, a furar, a desenterrar teorias, foi, talvez, surpreendente. Só me resta continuar e tentar, talvez ingloriamente, defender uma classe que, sem qualquer sombra de dúvida é vista por muita gente como inútil, aldrabona, e encostada. Isso é um facto do qual já ninguém me conseguirá desconvencer.

Pedindo já perdão pela generalização, e recorrendo a uma "estatística" alimentada por toda a gente que pegou na figura do ajuste directo (que expliquei mal, mea culpa, mea maxima culpa)- para dizer que as minhas palavras são apenas queixas e que também nós com os oito concertos públicos em 3 anos, nos tornámos um gordo fardo para as finanças do Estado-estou convencido de que muitos Portugueses não gostam de nada. Em absoluto.

Não gostam de cá estar. Não gostam dos seus artistas. Dos seus pares. Do ar que respiram. Não gostam de mim, de ti, do Fernando Tordo. Não adianta explicar que o concerto das festas de Lisboa, por exemplo, empregou meios e pessoas (quase uma centena, entre técnicos, convidados, agentes, catering, PA, Luzes, pirotecnia) que tiveram se ser obviamente pagos; é inútil o facto de continuar a bater-me pela noção de que o ajuste directo é, talvez, uma palavra feia para definir uma simples contratação e as autarquias (que nos marcam muito pontualmente) um cliente como qualquer outro (confiando que toda a gente que me acusou, recusaria um trabalho oferecido pelo Estado); todos os argumentos que são válidos esbarram numa teimosia retrograda e intolerável. O ajuste directo é, para estes haters, um pacto obscuro,por debaixo da mesa, apesar da sua obrigatoriedade pública e visível e todas as suas condições e retorno em forma de impostos e de criação de emprego qualificado. Não há cura possível para a burrice.

Alguns Portugueses vêm as coisas conforme lhes convém, desde que consigam, segundo eles, provar que o vizinho do lado está a chular e a parasitar, fazendo tábua rasa de tudo quanto faz sentido, para enaltecer essa paranóia que se instalou e que, para mim, acaba por ser tão perigosa e contributiva para o estado da nação como os políticos que fazem alguns emigrar ou desistir. Convenço-me até que dormem melhor à noite, que a sua frustração diminui agora que nos "caçaram" e apanharam em contramão.

Muitos Portugueses estão desconfiados de tudo e disparam em todas as direcções e fui um alvo porventura fácil.Pus-me a jeito. Mas não faz mal, nem me quero estar a vitimizar por causa disto. Não é a primeira, nem será a última vez. Eu continuarei a escrever e a dizer o que me vai na alma, com mais ou menos rigor, e continuarei a trabalhar com a banda para sobreviver da melhor e mais independente maneira que sabemos e que nos tem garantido, com esforço, uma carreira que pode não ser totalmente absorvida pelos ressabiados online, mas que existe e que vai crescendo, tal como disse no post, sem o favor de estarmos cobertos por uma rede que a crise pulverizou, matando os artistas que viviam exclusivamente nessa gaiola dourada, alheios à necessária reinvenção, à adaptação, com os pés no presente e os olhos no futuro. Tive pena que muita da discussão se resumisse a um julgamento público, desenterrando números, fazendo aritmética maldosa, tentando cobrir de lama o meu nome, o nome da banda e de todos quanto me são próximos.

Ainda assim, valeu a pena. Nada como tirar esta radiografia e estar seguro de que uma parte nada saudável dos nossos conterrâneos ainda acham que correr, investigar, escrever ou cantar, não é uma profissão séria. Nessas mentes, pelos vistos, nada há como um patrão, para mandar em nós, um patrão do qual nos vingamos porque telefonamos aos amigos, mesmo quando não há nada para dizer, do telemóvel da firma. Não estamos tão longe quanto pensávamos do obscurantismo antigo, o 25 de Abril trouxe-nos muita coisa mas não o esclarecimento e o respeito pela actividade liberal, e se os decisores políticos não consideram a cultura como um valor acrescentado e representativo do País, podemos verdadeiramente culpá-los? Afinal são (quase) como toda a gente nessa terrível (des)consideração pela nossa classe.

Já estive em diversos lados e já passei por diversas situações que o comum anónimo tão lesto em apontar o dedo, meteria o rabinho entre as pernas e fugiria para depois, de uma distância segura, mandar umas bocas. Por isso não estou intimidado, nem me aflige muito que pensem que sou um chulo, um vereador sem pasta que anda por aí a mendigar atenção e a chupar nas veias de um sistema moribundo. Quem andou a desenterrar mentiras é para mim nada mais que outra ovelha no rebanho, tão activo na maledicência e calúnia mas que, se por um acaso se visse no olho da tempestade -um ser tão obediente no seu local de trabalho mas tão fleumático ao almoço com os colegas no Pans & Company do shopping local- não saberia para onde se virar, tal seria o pânico.

Custa-me traçar este retrato mas apenas usei as cores da paleta que me deram. E é esta a verdadeira crise: a desunião, a desconfiança, o arrastar do nome por uma lama imaginária, a construção ao minuto de vários maus da fita para desculpar as nossas próprias insuficiências. Esta semana eu, há uns meses a miúda que quis a mala, todos os dias a Rita Pereira, que segundo um "especialista" tem curvas a mais(!!!- go Rita!). Esses Portugueses não têm desculpa, e o País estaria bem melhor sem eles. Essa é a minha convicção: abrir espaço para, dar voz a, e afastar da vez da nossa vida os caranguejos que nos puxam para dentro do balde quando tentamos subir e alcançar a luz.

Quase como por um reflexo condicionado, o Português difama. Sente-se bem, sente- se coberto de razão. Pede um bom vinho ao almoço no Chinês e discorre sobre os filhos da mãe dos queixinhas dos artistas, dos atletas, dos criadores, enfim de todos aqueles que não se contentaram em passear os livros na universidade e com o facto consumado de ir trabalhar com o papá para um banco, para uma companhia de seguros, para algo que na verdade não queriam, um espinho na garganta que aliviam com shots de má-língua, verbosidade e ódio.

Em todo o caso, estou para isto e para muito mais, para defender a minha classe desses puritanos. Para explicar que facturar não é receber ad nauseam se tal for preciso; para dizer que se emigramos a responsabilidade final é nossa como tantos emigrantes anónimos gentilmente nos explicaram, e que se ficarmos também o é .Estas pessoas que me mostraram os dentes, não me interessam para nada. Há gente bem melhor. E para esses continuarei a visita guiada às minhas ideias e convicções que não podem ser consultadas num site do Governo, que não irão ser destruídas pela mesquinhez, e que, com a melhor das intenções, se destinam a valorizar um país, uma história, uma cultura que muitos dos seus filhos simplesmente já não merecem.

Até já. A vida segue dentro de minutos.


PS: Activei a moderação de comentários. Como viram ainda aprovo muitos comentários desfavoráveis porque penso que se enquadram no espirito de discussão que quero promover através deste blog. Por outro lado, não quero dar espaço a psicopatas, haters e falsários. Acho que todos concordarão que tais pessoas não nos levam a lado algum.

PS2: Em alguns comentários acusam-me de deslealdade perante os meus colegas de profissão. Devo dizer que não é bem assim. Só nunca fui um grande adepto do "nacional-porreirismo" entre os músicos Portugueses, que na frente são todos abraços, mas que, pelas costas, afiam as facas. Não gosto de Hip-Hop, não gosto dos Buraka. Estou no meu direito e ao dizer isso abertamente não estou a ofender ninguém. Não ponho em causa o trabalho deles ou do estilo mas sou crítico perante algumas coisas e tenho direito, como toda gente, a ter preferências. Tenho muito amigos na cena musical Portuguesa mas sou eu que os escolho. Só para esclarecer.

PS3: Finalmente e bem, alguém lembrou o selo dos CTT e o prémio da SPA como exemplos de homenagens aos quais junto um louvor da Junta de Freguesia da Brandoa o ano passado. Não querendo ser ingrato, a colecção dos CTT homenageava e ilustrava o Rock em Portugal e, sem dúvida, termos sido incluídos é motivo de orgulho e só temos de agradecer aos Correios em Portugal e ao Luis Filipe Barros. Quanto à SPA e à JFB, gostaríamos que os primeiros tivessem sido mais capazes de nos integrar e prestar contas com transparência e solidez, não nos "perdendo" como aconteceu para a sua congénere Alemã (a GEMA). Quanto à JFB, gostaríamos que tivessem consultado a sua assembleia popular antes de mudar o nome da freguesia que nos viu nascer para Encostas do Sol, numa tentativa absurda de contornar o estigma dos subúrbios de Lisboa pela adopção de um nome mais afável, apagando história, identificação, consenso. Aceitámos ambas as últimas in absentia, fica a nota, não quisemos ser mal-educados mas se fosse hoje, pensaríamos duas vezes.

PS3: Last but not the least, um sincero e emotivo agradecimento ao Henrique Raposo pela sua coluna no EXPRESSO de dia 1 de Março. Como lhe disse, "também é para estes momentos que vivemos". Se me queixava de falta de homenagem, eis que um irmão me mete o dedo nos lábios e me remete a um respeitoso silêncio. Obrigado.

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