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16
Mar14

Discos novos. Porquê, para quê?

por oladolunar


Discos novos. Porquê, para quê?

Como muitos dos músicos em Portugal, tenho uma relação amor-ódio com quase toda a imprensa de música nacional. Isto não é novo. Acontece a todos, em todos os países, com todos os estilos. Vivemos numa dinâmica do casa/descasa, de guerras e tréguas. De sentimentos de injustiça e de pequenos ajustes de contas. Afinal, sem o admitirmos, precisamos todos uns dos outros. É o problema do ovo e da galinha. Sem solução mas ainda assim uma espécie de diálogo em aberto com afastamentos e aproximações.

Outro dia (dois, três meses a esta parte) li, como faço sempre quando pego na revista, o editorial do Miguel Cadete (Director) da Blitz. Se bem entendi, ele falava da (reduzida) pertinência de fazer um disco novo. Rematava, dizendo, que criar, produzir e lançar música em formato longa-duração é como que já somente uma ilusão caprichosa do artista, que não encontra eco no mercado ou no público, devido a uma certa velocidade alucinante com que se consome tudo e da falta de foco da massa que compra e vive online . Acho que não se referia a quem ainda frequenta lojas de discos,à massa crítica que também compra online mas as edições físicas, apreciadores de música (sim,eles ainda andam por aí) que conseguiram, perante as dificuldades, criar a sua rede de contactos e distribuidores e divulgadores de confiança. Adaptação. Enfim, o que se aborda no editorial é a velha guerra entre fazer singles e fazer discos, questionando-se a pertinência dos últimos perante o mercado, e o que acontece com as pessoas e, por consequência, com a música e com os músicos.

Não concordo. Eis as minhas razões principais:

Arrumemos, desde já, a "estúpida da emoção".As horas dedicadas ao descobrir de novos caminhos, ao desafiar-nos, ao ritual de passagem, as suas angústias e conquistas. A sensação da descoberta própria da obra verso as agruras e os prazeres da edição e comunicação. Isto até acaba por ser explicável porque nem toda a gente pode contactar de perto com esta dialéctica, a menos que estabeleça um sério compromisso com a música que ouve e segue,ou faz. Não será o caso. Mas, de toda a maneira este compromisso ainda existe e contém obrigações que não se encontram escritas em parte alguma, mas que devem ser assinaladas, num contexto que lhes é desfavorável (já que se debate muito mais a crise discográfica do que as situações e alternativas positivas que essa inegável crise possa ter, entretanto, obviado). É exactamente esse compromisso mais emocional do que qualquer outra coisa que sustenta uma grande parte da cena (muito mais que as incensadas vendas e streaming pago online via Itunes ou Spotify aka peanuts) incluindo a banda da qual faço parte, bem como muitas outras bandas, e por consequência todo o circuito ao vivo e editorial no qual as bandas e outros agentes (incluindo jornalistas) se movem.

Quer me também parecer que esta discussão está demasiado polarizada. De um lado, os artistas milionários que podem subverter as regras que servem para todos os outros, lançando esses tais de singles para vender produto, fazendo contratos que incluem sponsors que financiam todo o processo numa lógica muito mais vezes de contrapartidas do que de retorno dos advances financeiros, devido à ligação do artista ao produto em questão. É um modelo. Podemos não gostar ou podemos admirá-lo mas a produção de música não se lhe pode reduzir ou prestar vassalagem. Quem pode, pode. Quem não pode, terá de inventar. Podemos até aprender com lançamentos que se tornam casos de estudo como o do último disco da Beyoncé ou ter uma posição crítica em relação a artistas como os Radiohead que afinal não eram os heróis da malta da música boa à borla.Em todo o caso estes são exemplos que não servem à maioria das bandas no activo.


Por outro lado, aprecia-se e muito bem a independência e facilidade com que as novas bandas se estabelecem, sem editoras, sem marketing, mas também sem nada a perder, só à custa das redes sociais, dando a sua música e, em alguns casos notáveis, fidelizando fãs que esperam depois por material novo para, believe it or not, comprar e lá vai a banda ter de se conformar e ir gravar, investir, ou porque os singles se tornaram curtos, ou porque há outro viral no pedaço, ou porque toda esta estratégia foi feita também a pensar em dar um salto qualitativo da net para o mundo real das bandas, que muito erradamente se confundem por demasiadas vezes. Por muito louvável que tal alternativa seja, existirão sempre espinhos e problemas no percurso de todas estas bandas e, regra geral, haverá uma perda substancial da base de apoio inicial que se recusará a pagar um bilhete, a comprar um CD, a investir algo mais na banda do que a sua happy hour online. Ficam os restantes, os que eram sólidos apreciadores da música e querem acompanhar a banda, os fãs. Acreditem quando digo que é cada vez mais para esses que uma banda aponta as suas energias, dividindo com eles a sua criação na intenção ainda nobre de os entreter, levar em viagem, de ser a banda sonora das suas vidas e dos seus acontecimentos.


Por isso acho que é prematuro declarar a morte do modelo clássico de ouvir, fazer e distribuir a música e altura de desenterrar a cabeça das areias movediças dos negócios online, da conversa pessimista dos executivos do negócio que se têm a haver com menos do que há dez anos. Todas as editoras, os agentes, as promotoras, os festivais têm no seu radar e folha de serviço centenas de bandas que operam no meio desses pólos e são elas que animam a cena quase por inteiro. Está provado que, com apenas talvez uma dezena de excepções, não é liquido que o headliner venda todos os bilhetes do festival. Todo o alinhamento é importante e exemplo disso é a vitalidade de muitos dos palcos secundários que fazem as delicias de quem ainda vai pela música e não só pela experiência, expressão tão vaga quanto exacta para descrever não o, mas os espíritos festivaleiros.

Estes mesmos festivais ou simplesmente promotores de sala, quando fazem o seu calendário e escolhem as bandas para a sua programação, orientam-no de acordo com as datas de lançamento dos novos discos das bandas. É esta a primeira pergunta que fazem, relativizando a maior parte das vezes o fundo de catalogo, os concertos especiais, outros lançamentos ou actividade das bandas. Continua a ser misterioso para muitos porque é que os Van Halen, os Metallica, os Bon Jovi, os Strokes, os Pixies, os U2, os NIN,o Prince, continuam a lançar novos discos. Eu acredito que todos estes músicos sintam ainda esse chamamento que não obedece às regras do mercado, novo ou velho: fazer música nova. Por outra, sabem que o lançamento de um novo disco inicia um ciclo que, embora diferente, mais complicado e diminuído pela força spoiler da internet, é um ciclo quase sempre proveitoso para as bandas que, felizmente, e ao contrário de muitas das pessoas que têm responsabilidades de escrever sobre música nos jornais e revistas, têm as prioridades bem definidas.

Ser número 1 no Itunes em Portugal? Antes vender 150 discos num concerto (não, não conta para o TOP, pelo menos não em Portugal). Apesar das expectativas de cada um serem o que são, conforme se tem visto aqui pelo lado lunar, ainda há grão mesmo que os papos estejam em extinção. É ir bicando sem vergonha, sem moralismos, sem desvirtuar o romance que é ouvir e fazer música.


Nota: Link para o excelente artigo de Nuno Pacheco no Público online:

http://www.publico.pt/portugal/noticia/quem-canta-ja-nem-os-seus-males-espanta-1626479


Ainda há quem pense e queira ver de forma inteligente e humana a dimensão do ser músico em Portugal sem necessidade de desenterrar argumentos duvidosos ou sobrancerias avulso de comentadores que vivem numa espécie de nuvem burguesa e mandam chuva de vez em quando, daquela que só molha os parvos.

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11
Mar14

Conversas esta semana

por oladolunar
Caríssimos: Vou estar amanhã na escola ETIC, numa conversa aberta ao público, que começa às 12. Mais info no poster. Na Sexta, dia 14, estarei no Auditório CGD, no ISEG, das 14.30 às 16.30, numa conversa integrada na edição deste ano do Talkfest. Mais info aqui: http://talkfest.eu/talkfest14/convidados/

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10
Mar14

Não tenho medo de não ser humilde

por oladolunar


Estaremos nós todos, Portugueses com P grande ou pequeno, obcecados com a humildade? Se sim, o facto de julgarmos a humildade ou não dos outros, não nos fará menos humildes? Há vida, há pessoa, para além da humildade? O que é queremos mesmo dizer com isto, e o que é uma pessoa humilde?

Comecemos por dizer o que é não ser humilde. Eu não sou humilde. Nem tanto por tentar, como qualquer outra pessoa, ser modesto na maior parte das minhas acções, (conclusão que tiro puramente por comparação, por conduta, por vivência em grupo, família e sociedade, mas que resulta de uma observação mais pessoal, mais próxima); mas sim pela apreciação social que se fará de mim. Temo que seja considerado por muitos, tudo menos humilde. Mas, será que ser humilde, através dos olhos e ambições dos outros, é bom para nós, para os nossos desejos, para a nossa caminhada até algo que, sentimos, nos enobreça? Será que devemos ter medo da polícia da humildade?

Tenho um orgulho desmedido no que faço nos Moonspell. As razões são muitas e nem todas nascentes de oca vaidade. A improbabilidade da nossa carreira, os desafios, as horas, as palavras de desmotivação versus os resultados conseguidos perante quem nos desmotivava. Tudo isto mexe comigo. Se me apanham a dar recados em blogs ou em entrevistas, é porque acho, interna e externamente, que se devia falar do que esta banda faz, não para eu me sentir bem mas porque acredito na motivação positiva do exemplo e é, acreditem ou não, mais esta motivação que qualquer vaidade pessoal que me move. Eu também conheço os erros de Moonspell, sendo responsável por muitos deles e vivo mais sobre a dinâmica de nos ultrapassar a cada momento, do que nos envaidecer por isto ou por aquilo, mesmo que seja por algo muito mas muito importante. Conheçam-nos, os nossos erros, as nossas falhas, as nossas virtudes, é essa a mensagem. Sem vaidade ou jogos do sou melhor do que tu. É assim que se cria cultura, uma cena, uma vida. Temos de olhar em volta, para cima, para o lado, e para isso precisamos não só de saber que alguém se foi embora. Temos também de saber quem ficou. E porquê.

Convivemos com a pressão de ser humildes desde o começo da nossa carreira, das nossas vidas. Se enunciamos um facto, é auto-elogio. Se dizemos que está mal, é puro queixume. Agora que saltámos um pouco do nosso microcosmo, é frustrante constatar que a realidade não é assim tão diferente da que temos vivido, enfiados no nosso nicho, se quiserem. No post do Tordo (que vai para sempre ser a boa/má referência deste blog) muitos me acusaram exactamente de ao expor a minha realidade, cair na falta de humildade. Não é a primeira vez que tal me acontece.

Escrevi durante anos na revista de Heavy Metal Portuguesa Loud! Desisti da minha coluna lá porque a maioria dos leitores já pensavam que eu usava o espaço apenas para promover a banda, não criando dialética. Escrevo sempre do ponto de vista de estar numa banda. É o que faço há já metade da minha vida. É o meu ponto de vista,a minha experiência, o que me faz viver, viajar, trabalhar. O meu assunto. Como poderia eu escrever partindo de outro ponto de vista?

Por outra, se os Moonspell tocam e se coisas boas, que resultam de trabalho, estratégia e timing, nos acontecem, devemos (ou deve alguém) escondê-las a sete chaves no baú da humildade, do pudor? Devem os nossos sucessos, seja os de quem for, estarem dormentes e silenciados, até por nós, por vergonha de falarmos positivamente, com orgulho e vigor ? Será que por cá nunca se ouviu falar de exemplo positivo, de histórias inspiradas, do mérito de vencer? Temos sempre de estar ao lado dos humildes? Serão eles bons exemplos para a nossa vida? Ou apenas figuras castradoras que nos mandam para baixo? Inimigos do nosso bem-estar?

Há já uns dez anos fui às festas da cidade de Loures ver uma banda de que eu gostava bastante nessa altura. Tinha regressado de uma tour, já não me lembro muito bem de onde, e embora ainda andasse a juntar as peças do meu regresso, vi o concerto e fui dizer olá ao camarim. Fui bem recebido e alguém me perguntou o habitual, como estás, como está a banda? Sem lhe fazer uma descrição detalhada do que andávamos a fazer, disse o que tínhamos feito etc. conversa normal entre músicos, colegas de profissão. A conversa ficou por aí. Cá fora entre dois contentores que serviam de camarins, esse mesmo músico fumava um cigarro e dizia à miúda da banda: "está aí o gajo dos Moonspell, a gabar-se de que toca lá fora patati patata..." Eu retirei-me de imediato. A banda, essa, já não existe.

Tem sido esta a história da minha vida enquanto o atrevido que sou, que gosta de fazer as coisas bem, sem desculpas. Que tem opiniões e telhados de vidro, que tem orgulho no que faz, que gosta de partilhar o que de positivo tem a sua experiência, e por aí fora. Se falar de nós próprios, através das nossas coordenadas e contexto é cair no auto-elogio, porque escrevem as pessoas nos jornais, porque opinam nas televisões? Porque acham que os outros são parvos, menores... Porque é que a opinião paga é melhor que a amadora?

Imagine-se a cena: Portugal tem uma filha casadoira. Diversos pretendentes a querem desposar. Um é rico e produtivo. Entra na sala e faz com que a sala pare, com que a noiva suspenda a respiração. Outro é um inventor de coisas práticas e bonitas. Outro ainda é um homem belo e viril, que dará descendência forte e robusta. Ao canto da sala, coberto por um manto está um homem que não se destaca, é apenas humilde e como tal controlável. É esse o escolhido.

Se calhar devia ter estado calado quando escrevi sobre a emigração do Tordo, se calhar sou apenas um pateta metálico que se tentou meter num campo onde já outros pastam e cobrem com fartura, se calhar o que faço não tem assim tanta importância mesmo e mais vale um asilo cultural na mão que a vitória dos gabarolas como eu que querem mesmo fazer alguma coisa mais do que constatar o óbvio.

A vidinha confortável, silenciosa, e humilde não é para mim. Gosto de fazer barulho. Desconfio de gente humilde. Gosto de gente de peito feito e que andem de pé e não de joelhos.

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03
Mar14

Em cada esquina um amigo

por oladolunar


Já não.

Tirei estes dias para analisar o que aconteceu. Fui ao parque com o meu filho. Brincámos horas debaixo de um Sol que não quis aparecer enquanto estive nos EUA. Nem na California, nem na Florida, em parte alguma. Apenas um manto branco pelo qual o nosso autocarro deslizava e comia milhas atrás de milhas. Por isso, aproveitámos. Agora chove. Também escrevi outras coisas porque nem de só de celeuma vive o espírito. Poesia, sobretudo. Pensei na vida, nos Moonspell e meti na fila este blog e todas as reacções ao mesmo. As boas, as más, as péssimas porque tudo é aprendizagem. Noutras circunstâncias, talvez fosse este o último post, mas isso não irá acontecer. O facto do meu post sobre o Fernando Tordo se ter tornado objecto de acesa discussão em muitos meios, e o de ter posto muita boa e má gente a pensar, a furar, a desenterrar teorias, foi, talvez, surpreendente. Só me resta continuar e tentar, talvez ingloriamente, defender uma classe que, sem qualquer sombra de dúvida é vista por muita gente como inútil, aldrabona, e encostada. Isso é um facto do qual já ninguém me conseguirá desconvencer.

Pedindo já perdão pela generalização, e recorrendo a uma "estatística" alimentada por toda a gente que pegou na figura do ajuste directo (que expliquei mal, mea culpa, mea maxima culpa)- para dizer que as minhas palavras são apenas queixas e que também nós com os oito concertos públicos em 3 anos, nos tornámos um gordo fardo para as finanças do Estado-estou convencido de que muitos Portugueses não gostam de nada. Em absoluto.

Não gostam de cá estar. Não gostam dos seus artistas. Dos seus pares. Do ar que respiram. Não gostam de mim, de ti, do Fernando Tordo. Não adianta explicar que o concerto das festas de Lisboa, por exemplo, empregou meios e pessoas (quase uma centena, entre técnicos, convidados, agentes, catering, PA, Luzes, pirotecnia) que tiveram se ser obviamente pagos; é inútil o facto de continuar a bater-me pela noção de que o ajuste directo é, talvez, uma palavra feia para definir uma simples contratação e as autarquias (que nos marcam muito pontualmente) um cliente como qualquer outro (confiando que toda a gente que me acusou, recusaria um trabalho oferecido pelo Estado); todos os argumentos que são válidos esbarram numa teimosia retrograda e intolerável. O ajuste directo é, para estes haters, um pacto obscuro,por debaixo da mesa, apesar da sua obrigatoriedade pública e visível e todas as suas condições e retorno em forma de impostos e de criação de emprego qualificado. Não há cura possível para a burrice.

Alguns Portugueses vêm as coisas conforme lhes convém, desde que consigam, segundo eles, provar que o vizinho do lado está a chular e a parasitar, fazendo tábua rasa de tudo quanto faz sentido, para enaltecer essa paranóia que se instalou e que, para mim, acaba por ser tão perigosa e contributiva para o estado da nação como os políticos que fazem alguns emigrar ou desistir. Convenço-me até que dormem melhor à noite, que a sua frustração diminui agora que nos "caçaram" e apanharam em contramão.

Muitos Portugueses estão desconfiados de tudo e disparam em todas as direcções e fui um alvo porventura fácil.Pus-me a jeito. Mas não faz mal, nem me quero estar a vitimizar por causa disto. Não é a primeira, nem será a última vez. Eu continuarei a escrever e a dizer o que me vai na alma, com mais ou menos rigor, e continuarei a trabalhar com a banda para sobreviver da melhor e mais independente maneira que sabemos e que nos tem garantido, com esforço, uma carreira que pode não ser totalmente absorvida pelos ressabiados online, mas que existe e que vai crescendo, tal como disse no post, sem o favor de estarmos cobertos por uma rede que a crise pulverizou, matando os artistas que viviam exclusivamente nessa gaiola dourada, alheios à necessária reinvenção, à adaptação, com os pés no presente e os olhos no futuro. Tive pena que muita da discussão se resumisse a um julgamento público, desenterrando números, fazendo aritmética maldosa, tentando cobrir de lama o meu nome, o nome da banda e de todos quanto me são próximos.

Ainda assim, valeu a pena. Nada como tirar esta radiografia e estar seguro de que uma parte nada saudável dos nossos conterrâneos ainda acham que correr, investigar, escrever ou cantar, não é uma profissão séria. Nessas mentes, pelos vistos, nada há como um patrão, para mandar em nós, um patrão do qual nos vingamos porque telefonamos aos amigos, mesmo quando não há nada para dizer, do telemóvel da firma. Não estamos tão longe quanto pensávamos do obscurantismo antigo, o 25 de Abril trouxe-nos muita coisa mas não o esclarecimento e o respeito pela actividade liberal, e se os decisores políticos não consideram a cultura como um valor acrescentado e representativo do País, podemos verdadeiramente culpá-los? Afinal são (quase) como toda a gente nessa terrível (des)consideração pela nossa classe.

Já estive em diversos lados e já passei por diversas situações que o comum anónimo tão lesto em apontar o dedo, meteria o rabinho entre as pernas e fugiria para depois, de uma distância segura, mandar umas bocas. Por isso não estou intimidado, nem me aflige muito que pensem que sou um chulo, um vereador sem pasta que anda por aí a mendigar atenção e a chupar nas veias de um sistema moribundo. Quem andou a desenterrar mentiras é para mim nada mais que outra ovelha no rebanho, tão activo na maledicência e calúnia mas que, se por um acaso se visse no olho da tempestade -um ser tão obediente no seu local de trabalho mas tão fleumático ao almoço com os colegas no Pans & Company do shopping local- não saberia para onde se virar, tal seria o pânico.

Custa-me traçar este retrato mas apenas usei as cores da paleta que me deram. E é esta a verdadeira crise: a desunião, a desconfiança, o arrastar do nome por uma lama imaginária, a construção ao minuto de vários maus da fita para desculpar as nossas próprias insuficiências. Esta semana eu, há uns meses a miúda que quis a mala, todos os dias a Rita Pereira, que segundo um "especialista" tem curvas a mais(!!!- go Rita!). Esses Portugueses não têm desculpa, e o País estaria bem melhor sem eles. Essa é a minha convicção: abrir espaço para, dar voz a, e afastar da vez da nossa vida os caranguejos que nos puxam para dentro do balde quando tentamos subir e alcançar a luz.

Quase como por um reflexo condicionado, o Português difama. Sente-se bem, sente- se coberto de razão. Pede um bom vinho ao almoço no Chinês e discorre sobre os filhos da mãe dos queixinhas dos artistas, dos atletas, dos criadores, enfim de todos aqueles que não se contentaram em passear os livros na universidade e com o facto consumado de ir trabalhar com o papá para um banco, para uma companhia de seguros, para algo que na verdade não queriam, um espinho na garganta que aliviam com shots de má-língua, verbosidade e ódio.

Em todo o caso, estou para isto e para muito mais, para defender a minha classe desses puritanos. Para explicar que facturar não é receber ad nauseam se tal for preciso; para dizer que se emigramos a responsabilidade final é nossa como tantos emigrantes anónimos gentilmente nos explicaram, e que se ficarmos também o é .Estas pessoas que me mostraram os dentes, não me interessam para nada. Há gente bem melhor. E para esses continuarei a visita guiada às minhas ideias e convicções que não podem ser consultadas num site do Governo, que não irão ser destruídas pela mesquinhez, e que, com a melhor das intenções, se destinam a valorizar um país, uma história, uma cultura que muitos dos seus filhos simplesmente já não merecem.

Até já. A vida segue dentro de minutos.


PS: Activei a moderação de comentários. Como viram ainda aprovo muitos comentários desfavoráveis porque penso que se enquadram no espirito de discussão que quero promover através deste blog. Por outro lado, não quero dar espaço a psicopatas, haters e falsários. Acho que todos concordarão que tais pessoas não nos levam a lado algum.

PS2: Em alguns comentários acusam-me de deslealdade perante os meus colegas de profissão. Devo dizer que não é bem assim. Só nunca fui um grande adepto do "nacional-porreirismo" entre os músicos Portugueses, que na frente são todos abraços, mas que, pelas costas, afiam as facas. Não gosto de Hip-Hop, não gosto dos Buraka. Estou no meu direito e ao dizer isso abertamente não estou a ofender ninguém. Não ponho em causa o trabalho deles ou do estilo mas sou crítico perante algumas coisas e tenho direito, como toda gente, a ter preferências. Tenho muito amigos na cena musical Portuguesa mas sou eu que os escolho. Só para esclarecer.

PS3: Finalmente e bem, alguém lembrou o selo dos CTT e o prémio da SPA como exemplos de homenagens aos quais junto um louvor da Junta de Freguesia da Brandoa o ano passado. Não querendo ser ingrato, a colecção dos CTT homenageava e ilustrava o Rock em Portugal e, sem dúvida, termos sido incluídos é motivo de orgulho e só temos de agradecer aos Correios em Portugal e ao Luis Filipe Barros. Quanto à SPA e à JFB, gostaríamos que os primeiros tivessem sido mais capazes de nos integrar e prestar contas com transparência e solidez, não nos "perdendo" como aconteceu para a sua congénere Alemã (a GEMA). Quanto à JFB, gostaríamos que tivessem consultado a sua assembleia popular antes de mudar o nome da freguesia que nos viu nascer para Encostas do Sol, numa tentativa absurda de contornar o estigma dos subúrbios de Lisboa pela adopção de um nome mais afável, apagando história, identificação, consenso. Aceitámos ambas as últimas in absentia, fica a nota, não quisemos ser mal-educados mas se fosse hoje, pensaríamos duas vezes.

PS3: Last but not the least, um sincero e emotivo agradecimento ao Henrique Raposo pela sua coluna no EXPRESSO de dia 1 de Março. Como lhe disse, "também é para estes momentos que vivemos". Se me queixava de falta de homenagem, eis que um irmão me mete o dedo nos lábios e me remete a um respeitoso silêncio. Obrigado.

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