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31
Jul15

adios amigos

por oladolunar

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p> Escrevi este texto a pedido do Expresso em Abril passado. 11 personalidades encontrando pela música, soluções e fazendo um check-up ao país. Este texto trouxe-me alguns dissabores, os do costume. Afinal esta minha ingenuidade em apelar a outro sentido de voto foi uma pequena flecha dentro do coração liberal do maior jornal politico do país, que apenas admite a esquerda levezinha do Daniel Oliveira e do seu protegido Livre, esse fenómeno capa de jornal embora só junte meia dúzia de gatos pingados nas suas sessões públicas de salvação da pátria. Este texto for retirado e colocado online por várias vezes e aqui fica mais uma vez para quem não teve oportunidade de o ler. Algumas notas: - acredito mesmo que se deva mudar o sentido de voto do eixo maldito que nos governa desde o novo Portugal democrático. - não acho que o que parva que sou ou o princesa...sejam os hinos de uma geração revolta ou inconformada. não acredito nas manifestações Time Out que percorreram a cidade para desaguarem no Cais do Sodré ao sabor do gim importado - ainda ontem estive a beber uma cerveja com o Miguel Tiago deputado da CDU e gostava que ele chegasse a ministro. Não como os Portas sentido da pátria my ass das vidas, mas como símbolo de alguém que quer trabalhar para fazer melhor. de resto é lerem, um abraço e bom fim de semana! Que Portugal anda desafinado, todos sabemos. Aliás, é público que o nosso primeiro-ministro, esse barítono de papo cheio, nos quer levar em cantigas, mas estes navegadores de agora, toda a nossa massa cinzenta e empreendedora, já não cai no canto da sereia. É preciso mudar o disco, apanhar o ritmo. Na verdade, o fatalismo do Fado que exportamos ora com capa alegre, ora com sorriso triste, ou açucarado com outrora nas fazendas do Brasil, é coisa que nos colou à pele e já não sai. Seremos então todos fadistas de vocação e destino. Teremos todo este F tatuado na testa? O hip-hop deixou de ser social, a maioria pelo menos e passou a ser conto de fadas romântico para damas e princesas. Dali nem uma pedra sairá para afugentar as moscas do charco. A musica clássica é a das tardes do CCB para burguês ver e tentem entrar numa Gulbenkian ou num S. Carlos de jeans e tatuagens ao léu, e todos os olhares ainda se voltarão para vocês, com exactamente há quinze anos atrás quando fui ver o Fausto de Gounod, porque gosto, porque me encanta e porque fui para ver e não para ser visto. As feiras por esse país fora encerraram-se na brejeirice do tem fio o nabo, ao som de concertinas televisionadas, onde se dão mais subsídios que ao teatro em Portugal. O que interessa é o cabaz no fim, o vermelho das chouriças e das caras e das pernas das bailarinas Brasileiras. Que mais? O novo Pop ruma até ao passado e somos todos Heróis do Mar outra vez, todos Variações outra vez mas sem a acutilância, apenas letras inofensivas do fui ali e já volto ao Bairro Alto, apesar da crise os copos ainda são baratos, e os amigos altamente impressionáveis. Por fim entregámos o título de cantores de intervenção às pessoas mais betas do mudo, para as quais está sempre tudo bem, que dizem sempre o correcto, que estão no sítio certo á hora certa fingindo-se de parvos e vítimas para uma geração que muito mais que lutar, quer fazer a luta sentada, com os amigos ao lado, algo suave, que não seja muito alto, que dê para um pezinho de dança mas que fique tudo na mesma, quando discutimos os resultados da mania entre imperiais e tremoços. Sou suspeito, muito suspeito mas acho que falta ao país a dinâmica do Rock em todo os seus sentidos: o Punk, o Metal, o Stoner, que não sendo também eles intervenção pura, existem enquanto sociedade organizada de insatisfeitos limitada, uma panelita de pressão que pode ensinar muito acerca de como se faz as coisas com pouco, sem a mãozinha por baixo do estado e dos institutos que tal como na política, se recusam a experimentar a mudança radical e foram construindo um bloco central de música, povoado por burgueses e seus clientes, um lobbying que nos faz andar em círculos, mas sem tentar morder a própria cauda para sentir se estamos vivos. Por isso: mudar a dinâmica, berrar, tocar rápido, ir ao fundo das coisas é o que necessitamos: uma nova música, um novo paradigma, uma nova era. Sim vão votar no PS e no PSD outra vez, sim comprem sempre os mesmos discos, enganem-se com fados abrasileirados ou com kizombas ocidentais. O segredo da política em proveito próprio é manter tudo como estava. Eu continuarei a acreditar no Rock como sinónimo de mudança, nos partidos que nunca governaram, na CDU ao poder, porque não?, o que temos a perder? Às vezes temos de levantar o rabo das cadeiras dos auditórios, mandar fora toda a tralha publicitária com que bons enchem as mãos no festival e pegar na foice, no martelo, nas guitarras altas e bom som e gritar a plenos pulmões: basta! É tempo de acertarmos o ritmo, melhorar o conteúdo e deixarmos de ser ratinhos na roda. Pergunto outra vez, o que temos a perder? Let's rock'n'roll!!! FR

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25
Jul15

O Mundo é um gajo complicado

por oladolunar

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Vejo o nascer do Sol numa estrada Polaca a caminho de Varsóvia. São 4 da manhã. Os Eslavos levantam-se cedo. Foi um fim de semana delirante. Muita coisa se passou. Muita coisa aconteceu. A maior parte só a nós nos diz respeito. Esta é uma paragem necessária e obrigatória por Lei. O nosso condutor, Pawel, um Polaco gordinho e super profissional, galgou quilómetros e horas e pede meia-hora para descansar. O disco digital incorporado no seu minibus também não nos deixaria partir mas, engraçado, ele programa o despertador para daqui a 40 minutos exactos , fecha as cortinas e põe os óculos de Sol e daí a quarenta minutos exactos entra na estação de serviço onde eu estou no terceiro café da viagem, a sacar net para meter um post que agradeça a quem nos viu nos Cárpatos e avise quem queira ir a Albufeira. Nesta paragem, respiro. Para trás ficaram 22 horas neste mesmo minibus; um regresso ao passado das fronteiras terrestres e das papeladas no nosso caminho entre Eslovénia-Polónia- Ucrânia. Oh, Nikita, is it cold? Para trás "os odeio este país que nos faz secar três horas por causa de miudezas que já não se usam neste Europa unida". Depois a mudança de opinião quando as pessoas que há minutos falhavam com o prometido agora sorriem e nos dão o melhor que têm, a sua gastronomia, o seu chá gelado-fumado; o seu sorriso nas selfies sem fronteiras. A mente muda com a colocação do corpo. A febre da cabina; a exultação do ar livre. Dentro da carrinha, na viagem de ida: os nossos amigos inseparáveis, a banda grega Septic Flesh. Uns pelo oxi, não, pelo apocalíptico Syriza ; outros considerando que sim os gregos festejam e preguiçam em demasia e que os alemães tem razão. Lá fora, uma Polaca de fazer parar o trânsito, cá dentro homens que talvez viajem em demasia. Esperamos, corremos. Esta é a dinâmica dos nossos corpos. Qual será a dinâmica da nossa mente? No avião para casa, atrasado, a tempo, pressas,sorrisos, caras fechadas, lemos as revistas e os jornais. Um sociólogo (perigosamente perto da sociopatia) na Sábado diz mal de tudo. Diz mal do Obama, a sua presidência "um doloroso incidente" que ajudou a legalizar drogas leves; casamento gay; que capturou e matou (talvez simbolicamente apenas) o Bin Laden; que atentou contra o capitalismo da saúde propondo o acesso livre à saude. Amigos pessoais que foram deixados a morrer porque não conseguiram um empréstimo bancário para operarem o tumor no cérebro. Cuba a impedir a transmissão do vírus HIV de mãe para filho (vais dizer mal disto ò Alberto?). Um Portugal de direita, implacável com a Grécia, com o Podemos, simpatizando com a ironia dos destinos negros das grandes civilizações. Em casa de ferreiro...Todas as grandes nações...na merda...Egipto, Portugal, Espanha, Grécia, Itália, PIGS, gerando monstros em vez de maravilhar como outrora. Aconteceu? Contexto, conjuntura, pontes de ignorância do futuro que não consegue aceder ao disco rígido dos continentes, da História sem abstracção. O Mundo é um gajo complicado. Onde está a razão, porquê adicionar ao ruído outro blog, mais palavras, mais amarguras, mais opinião. Alemães que me devem dinheiro enquanto me moralizam. Gregos que polarizam. Que polinizam. Que confusão na cabeça. O Português que tudo sabe e que tudo quer debater. As férias. O nosso umbigo moreno no fim da Europa. As férias. Que todos merecemos por igual. E este nascer do Sol, contemplado em silêncio na estranheza de um mundo que nunca se entenderá. Que nunca entenderei. Vou para casa pensar mas talvez durma. As horas pesam. As palavras ainda mais. Só sei que estamos todos perdidos, todos contra todos, e podia ser poético e agarrar-me ao nascer do Sol, vermelho, eslavo, bonito. Mas não. Alguém me irá chatear por nos sentarmos aqui ou ali, ou porque tiramos a selfie só depois de fazer xixi, ou como é possível eu editar um livro no Brasil se sou contra o acordo ortográfico. Eles. Nós. Tudo é escolha. Marcaremos uma reunião. Um almoço. Afinal todos nos queremos esclarecer. Ter a razão do nosso lado. Todos vitimas, incompreendidas. Tudo é estranho, afinal. Mas há coisas bonitas, Alberto.

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15
Jul15

por oladolunar

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Em quem nos tornámos? Non serviam Cedi à pressão e senti cada palavra como um prego cravado nas veias das mãos. Desisti de vir aqui escrever e deixar as minhas ideias e pensamentos, com ou sem fundamento, razão ou levados pela emoção de gostar do meu país. Uma demonstração de resistência. Não tomar a árvore pela floresta. Ou pelo contrário. Até que passado um bom tempo a observar, ressuscitei para a vida escrita. E reconheci, como me disseram muitos, que desistir não é opção e que vozes como a minha, perdão pela imodéstia, são talvez necessárias para desafinar o coro ordeiro dos nossos músicos que respondem sim e não, nim,conforme a ocasião e, digo eu, a consequência. Baralhar um pouco a ordem dos textos engravatados de neo-liberalismo e de moral que por vezes se dão mal, cabendo sempre mais um na cadeia da mediocridade serviçal e programática, é, realmente, a minha intenção. Este tempo de, como diriam outros, reflexão fez-me observar diversas coisas e teve o condão de me fazer sentir aliviado porque na verdade nunca estamos sozinhos quando levamos na cabeça. Fez-me ver que o cidadão comum quando se envolve em polémica é para valer e aí sim o Português pesquisa, e vai buscar coisas à cabeça de um tinhoso porque ter razão é tudo quanto interessa em muitas das discussões que vão aparecendo, nos cafés ou nas redes sociais que lhes fazem a vez. A onda, quanto a mim, indigna contra o que o governo Grego está a fazer é um perfeito exemplo disso. É o enfiar do barrete saloio, do bom aluno, do pagador, do que rebusca no lixo para mandar porcaria acima. Seremos mesmo um povo tão corajoso, tão bom de contas, tão exemplar e recto? Ou teremos nós caído na esparrela alemã do alles gegen alles, fechando os olhos a actos verdadeiramente democratas, de dedo esticado a apontar e a pensar "vês? eu bem te disse." Muitas vezes o emitir da minha opinião tem sido confundido com uma espécie de " ressabiamento", até por pessoas que fazem vida do comentário, o que não é o meu caso. No post do Fernando Tordo, o meu momento de fama no reino da opinão (doxa ver temos grego) foi tomado como um insurgir injusto contra um colega de profissão; depois, de repente, tornei-me milionário às custas dos vossos impostos, como se eu não os pagasse também e não desse trabalho a tantos que me ajudam a executar a minha função de cantor de uma banda. Outros, deram-me razão e desafinaram comigo. Não podemos nem devemos entregar a defesa dos nossos direitos e opiniões, sejam elas quais forem, a quem responde "depende". É tempo de tomar posição e ver as coisas para lá das coisas. É tempo de a música fazer mais que entreter teatros e é tempo de juntar as nossas vozes para ressabiarmos juntos. Porque é assim que se luta e não a sorrir de alívio por pagarmos resgates de bancos e bónus chorudos a quem nos leva à bancarrota financeira e anímica. Sim espero que a Grécia não pague, assim como nós não deveríamos ter pago um cêntimo aos agiotas, esta peste negra do nosso século. Porque já não há mais nada para venda que não países, é tempo de pelo menos percebermos o que se passa, ir vivendo as dificuldades com a dignidade do conhecimento de causa, e não nos atirarmos ao pescoço do nosso congénere: a pessoa comum que quer colocar pão na mesa, cultura na alma, a sua música na rádio ou seja o que for, insignificante ou importante,não nos cabe julgar, apenas denunciar a injustiça dos sonhos que ficam pelo caminho. Desde quando nos tornámos nós justiceiros populares? Quem somos nós,afinal, povo Português? Vamos respirar fundo e pensar ainda mais longe. É a nossa obrigação para com o nosso país, para com a Europa dos filósofos, Alemães ou Gregos,não interessa. Ambos a pensaram outrora de uma forma que em nada se assemelha a esta guerra desarmada mas que faz, não obstante, vítimas. É o nosso dever para com um continente que ainda permite comunistas, socialistas, conservadores, republicanos, e sociais-democratas conviverem e irem a tempo de extirpar a raiz podre do mercantilismo feito com a alma e com o dinheiro dos povos. Fernando Ribeiro PS: O Lado Lunar está de volta, para ficar. Agradeço a quem se dá ao trabalho de me seguir. É para mim uma honra necessária, comunicar. Foto: telegraph.co.uk all rights reserved

#nonserviam #grecia #europa

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08
Jun14

One hit wonder

por oladolunar
Depois de uma longa pausa em que me dediquei a algo mais importante do que o que possa acontecer a este país e a todos quanto nele habitam (sim ainda há lugar para essas coisas) , vou escrever aqui o meu último artigo e se tudo me correr bem desaparecer da blogosfera, ir para bem longe, e ser, com certeza, menos sábio, mas mais feliz.

Nada mudou, nem irá mudar. O Fernando Tordo, o meu one hit wonder post, continua no Brasil, arrasando o Portugal de hoje, divorciado de Abril e dos de Abril, sempre que lhe dão voz para isso. Os Portugueses continuam a sua via dolorosa verso sabe se lá o quê ou onde, queixume afinadamente carpido, e eu continuo dentro de um avião da TAP, rumo a Lisboa, vindos de Bucareste, Roménia.

A minha decisão de deixar de escrever, antecipada pelo longo interregno desde a publicação do meu último post é simples: não há massa crítica em Portugal. Nem nos blogs, nem na Televisão e muito menos na esmagadora maioria de quem comenta, perdão, de quem calunia quem se atreve a ter uma visão diferente sobre um problema ou um acontecimento. O meu post sobre o Fernando Tordo levou o meu nome a todo o lado, e na maior parte das vezes para o encharcarem de lama. Até na Televisão,tive imerecido destaque: a Clara Ferreira Alves e o Daniel Oliveira, disseram que não sabiam quem eu era: passo a explicar, sou um músico com opiniões e experiência de vida na vida modesta mas gloriosa que levo. Amanhã estarei a tocar na Arrepele Romene em Bucareste para 5000 pessoas. Admito que algumas até me possam conhecer.

O que eu não sou mesmo, é um parasita do próprio aparelho que o sustenta, pago para criticar e pago para se achar melhor do que a mão/estrutura que o alimenta. Não fora tanta inépcia do sistema a apontar, estas pessoas ficariam sem trabalho e sem sustento, pelo que, talvez, aderissem à moda e levassem a sua corte também para o Brasil. Boa viagem. Também não lhes reconheço nenhuma capacidade, nenhuma ideia que se tenha aproveitado de e para a mudança. Andam por aí, tal como eu, tal como os outros, mas conseguem ver tudo melhor que os comuns. Ficarão para a história? Terão um nome de rua? Alguém pode atestar da sequência prática do que despejam nos programas? Alguém já se sentiu inspirado a agir por esta duvidosa elite?


Falar é sempre fácil, comentar ainda mais. Mudar vidas...nem por isso. De resto: velha história, para lá de Badajoz ou se calhar ainda mesmo no nosso Alentejo o seu anonimato será porventura mais preocupante que o meu.

Mas, lá está, exemplos e histórias passadas. O que retiro daqui é que a esmagadora parte dos comentários foram ofensas, má-criações, calúnias. E essas, para mim, definem a arte de bem discutir em Portugal: disparar primeiro, conversar depois. Não tenho feitio para comer e calar, para trolls, para haters, para merdas. Muita gente veio ter comigo na rua a dizer "deste-lhe bem". Errado. Não dei bem a ninguém. Disse a minha opinião. Para que não se pense que há só uma maneira de viver e ver a música em Portugal.

As pessoas que vem ter comigo na rua e não conhecem muito bem o que os Moonspell fazem, nunca sabem muito bem o que dizer também. Talvez seja a altura de assumir o nosso caracter alienígena. Não há massa crítica, ninguém reflecte sobre as coisas e a vontade de mudar na nossa cena musical é nula. Quando se fala de um artista grande, seja da boca do Pop, do jornalista armado em bad boy, do metaleiro...dizem-me sempre o Tony...tens de respeitar que ele é um profissional...e nós somos o quê? Uma brincadeira? Enfim o tamanho interessa. De resto é um ir e vir de vaidade e um medo terrível de que as coisas mudem e que de repente não se fale (ainda) mais do Tony, ou não se cante Abril, em bom e acordado português.

Adiante, o futuro é negro. Portugal está nas mãos do seu próprio povo que, à primeira oportunidade, o destrói, distribuindo desculpas e acusações como rajadas de G3. Generalizando, tal como eu.

Estou no meu direito quando não quero ser parte disso. Estou no meu direito quando digo que continuo a amar o meu país, independentemente do Tordo ter emigrado, de eu ter trabalhado para o Estado oito vezes nos últimos dois anos e de ser um perfeito desconhecido para a esquerda caviar.Amo Portugal. Esse amor, que não se explica, irá inspirar-me sempre para fazer algo que quer o burguês, quer o remediado, se tem esquecido de fazer e que antigamente nos destacava enquanto povo: conquistar.


E é dos palcos de Bucareste que vos saúdo, agradecendo a todos quanto leram este blog, pelas propostas e convites sérios que espontaneamente aqui surgiram. Aos que me ofenderam, o meu ditado romano preferido: Às aguias não importam as moscas.

Até sempre ou até nunca!,Conforme for o vosso desejo..



PS: Sou o segundo a contar da esquerda. Os outros são a minha banda, a minha familia lunar, os meus verdadeiros amigos. "Emigramos todos os anos."

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16
Mar14

Discos novos. Porquê, para quê?

por oladolunar


Discos novos. Porquê, para quê?

Como muitos dos músicos em Portugal, tenho uma relação amor-ódio com quase toda a imprensa de música nacional. Isto não é novo. Acontece a todos, em todos os países, com todos os estilos. Vivemos numa dinâmica do casa/descasa, de guerras e tréguas. De sentimentos de injustiça e de pequenos ajustes de contas. Afinal, sem o admitirmos, precisamos todos uns dos outros. É o problema do ovo e da galinha. Sem solução mas ainda assim uma espécie de diálogo em aberto com afastamentos e aproximações.

Outro dia (dois, três meses a esta parte) li, como faço sempre quando pego na revista, o editorial do Miguel Cadete (Director) da Blitz. Se bem entendi, ele falava da (reduzida) pertinência de fazer um disco novo. Rematava, dizendo, que criar, produzir e lançar música em formato longa-duração é como que já somente uma ilusão caprichosa do artista, que não encontra eco no mercado ou no público, devido a uma certa velocidade alucinante com que se consome tudo e da falta de foco da massa que compra e vive online . Acho que não se referia a quem ainda frequenta lojas de discos,à massa crítica que também compra online mas as edições físicas, apreciadores de música (sim,eles ainda andam por aí) que conseguiram, perante as dificuldades, criar a sua rede de contactos e distribuidores e divulgadores de confiança. Adaptação. Enfim, o que se aborda no editorial é a velha guerra entre fazer singles e fazer discos, questionando-se a pertinência dos últimos perante o mercado, e o que acontece com as pessoas e, por consequência, com a música e com os músicos.

Não concordo. Eis as minhas razões principais:

Arrumemos, desde já, a "estúpida da emoção".As horas dedicadas ao descobrir de novos caminhos, ao desafiar-nos, ao ritual de passagem, as suas angústias e conquistas. A sensação da descoberta própria da obra verso as agruras e os prazeres da edição e comunicação. Isto até acaba por ser explicável porque nem toda a gente pode contactar de perto com esta dialéctica, a menos que estabeleça um sério compromisso com a música que ouve e segue,ou faz. Não será o caso. Mas, de toda a maneira este compromisso ainda existe e contém obrigações que não se encontram escritas em parte alguma, mas que devem ser assinaladas, num contexto que lhes é desfavorável (já que se debate muito mais a crise discográfica do que as situações e alternativas positivas que essa inegável crise possa ter, entretanto, obviado). É exactamente esse compromisso mais emocional do que qualquer outra coisa que sustenta uma grande parte da cena (muito mais que as incensadas vendas e streaming pago online via Itunes ou Spotify aka peanuts) incluindo a banda da qual faço parte, bem como muitas outras bandas, e por consequência todo o circuito ao vivo e editorial no qual as bandas e outros agentes (incluindo jornalistas) se movem.

Quer me também parecer que esta discussão está demasiado polarizada. De um lado, os artistas milionários que podem subverter as regras que servem para todos os outros, lançando esses tais de singles para vender produto, fazendo contratos que incluem sponsors que financiam todo o processo numa lógica muito mais vezes de contrapartidas do que de retorno dos advances financeiros, devido à ligação do artista ao produto em questão. É um modelo. Podemos não gostar ou podemos admirá-lo mas a produção de música não se lhe pode reduzir ou prestar vassalagem. Quem pode, pode. Quem não pode, terá de inventar. Podemos até aprender com lançamentos que se tornam casos de estudo como o do último disco da Beyoncé ou ter uma posição crítica em relação a artistas como os Radiohead que afinal não eram os heróis da malta da música boa à borla.Em todo o caso estes são exemplos que não servem à maioria das bandas no activo.


Por outro lado, aprecia-se e muito bem a independência e facilidade com que as novas bandas se estabelecem, sem editoras, sem marketing, mas também sem nada a perder, só à custa das redes sociais, dando a sua música e, em alguns casos notáveis, fidelizando fãs que esperam depois por material novo para, believe it or not, comprar e lá vai a banda ter de se conformar e ir gravar, investir, ou porque os singles se tornaram curtos, ou porque há outro viral no pedaço, ou porque toda esta estratégia foi feita também a pensar em dar um salto qualitativo da net para o mundo real das bandas, que muito erradamente se confundem por demasiadas vezes. Por muito louvável que tal alternativa seja, existirão sempre espinhos e problemas no percurso de todas estas bandas e, regra geral, haverá uma perda substancial da base de apoio inicial que se recusará a pagar um bilhete, a comprar um CD, a investir algo mais na banda do que a sua happy hour online. Ficam os restantes, os que eram sólidos apreciadores da música e querem acompanhar a banda, os fãs. Acreditem quando digo que é cada vez mais para esses que uma banda aponta as suas energias, dividindo com eles a sua criação na intenção ainda nobre de os entreter, levar em viagem, de ser a banda sonora das suas vidas e dos seus acontecimentos.


Por isso acho que é prematuro declarar a morte do modelo clássico de ouvir, fazer e distribuir a música e altura de desenterrar a cabeça das areias movediças dos negócios online, da conversa pessimista dos executivos do negócio que se têm a haver com menos do que há dez anos. Todas as editoras, os agentes, as promotoras, os festivais têm no seu radar e folha de serviço centenas de bandas que operam no meio desses pólos e são elas que animam a cena quase por inteiro. Está provado que, com apenas talvez uma dezena de excepções, não é liquido que o headliner venda todos os bilhetes do festival. Todo o alinhamento é importante e exemplo disso é a vitalidade de muitos dos palcos secundários que fazem as delicias de quem ainda vai pela música e não só pela experiência, expressão tão vaga quanto exacta para descrever não o, mas os espíritos festivaleiros.

Estes mesmos festivais ou simplesmente promotores de sala, quando fazem o seu calendário e escolhem as bandas para a sua programação, orientam-no de acordo com as datas de lançamento dos novos discos das bandas. É esta a primeira pergunta que fazem, relativizando a maior parte das vezes o fundo de catalogo, os concertos especiais, outros lançamentos ou actividade das bandas. Continua a ser misterioso para muitos porque é que os Van Halen, os Metallica, os Bon Jovi, os Strokes, os Pixies, os U2, os NIN,o Prince, continuam a lançar novos discos. Eu acredito que todos estes músicos sintam ainda esse chamamento que não obedece às regras do mercado, novo ou velho: fazer música nova. Por outra, sabem que o lançamento de um novo disco inicia um ciclo que, embora diferente, mais complicado e diminuído pela força spoiler da internet, é um ciclo quase sempre proveitoso para as bandas que, felizmente, e ao contrário de muitas das pessoas que têm responsabilidades de escrever sobre música nos jornais e revistas, têm as prioridades bem definidas.

Ser número 1 no Itunes em Portugal? Antes vender 150 discos num concerto (não, não conta para o TOP, pelo menos não em Portugal). Apesar das expectativas de cada um serem o que são, conforme se tem visto aqui pelo lado lunar, ainda há grão mesmo que os papos estejam em extinção. É ir bicando sem vergonha, sem moralismos, sem desvirtuar o romance que é ouvir e fazer música.


Nota: Link para o excelente artigo de Nuno Pacheco no Público online:

http://www.publico.pt/portugal/noticia/quem-canta-ja-nem-os-seus-males-espanta-1626479


Ainda há quem pense e queira ver de forma inteligente e humana a dimensão do ser músico em Portugal sem necessidade de desenterrar argumentos duvidosos ou sobrancerias avulso de comentadores que vivem numa espécie de nuvem burguesa e mandam chuva de vez em quando, daquela que só molha os parvos.

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11
Mar14

Conversas esta semana

por oladolunar
Caríssimos: Vou estar amanhã na escola ETIC, numa conversa aberta ao público, que começa às 12. Mais info no poster. Na Sexta, dia 14, estarei no Auditório CGD, no ISEG, das 14.30 às 16.30, numa conversa integrada na edição deste ano do Talkfest. Mais info aqui: http://talkfest.eu/talkfest14/convidados/

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10
Mar14

Não tenho medo de não ser humilde

por oladolunar


Estaremos nós todos, Portugueses com P grande ou pequeno, obcecados com a humildade? Se sim, o facto de julgarmos a humildade ou não dos outros, não nos fará menos humildes? Há vida, há pessoa, para além da humildade? O que é queremos mesmo dizer com isto, e o que é uma pessoa humilde?

Comecemos por dizer o que é não ser humilde. Eu não sou humilde. Nem tanto por tentar, como qualquer outra pessoa, ser modesto na maior parte das minhas acções, (conclusão que tiro puramente por comparação, por conduta, por vivência em grupo, família e sociedade, mas que resulta de uma observação mais pessoal, mais próxima); mas sim pela apreciação social que se fará de mim. Temo que seja considerado por muitos, tudo menos humilde. Mas, será que ser humilde, através dos olhos e ambições dos outros, é bom para nós, para os nossos desejos, para a nossa caminhada até algo que, sentimos, nos enobreça? Será que devemos ter medo da polícia da humildade?

Tenho um orgulho desmedido no que faço nos Moonspell. As razões são muitas e nem todas nascentes de oca vaidade. A improbabilidade da nossa carreira, os desafios, as horas, as palavras de desmotivação versus os resultados conseguidos perante quem nos desmotivava. Tudo isto mexe comigo. Se me apanham a dar recados em blogs ou em entrevistas, é porque acho, interna e externamente, que se devia falar do que esta banda faz, não para eu me sentir bem mas porque acredito na motivação positiva do exemplo e é, acreditem ou não, mais esta motivação que qualquer vaidade pessoal que me move. Eu também conheço os erros de Moonspell, sendo responsável por muitos deles e vivo mais sobre a dinâmica de nos ultrapassar a cada momento, do que nos envaidecer por isto ou por aquilo, mesmo que seja por algo muito mas muito importante. Conheçam-nos, os nossos erros, as nossas falhas, as nossas virtudes, é essa a mensagem. Sem vaidade ou jogos do sou melhor do que tu. É assim que se cria cultura, uma cena, uma vida. Temos de olhar em volta, para cima, para o lado, e para isso precisamos não só de saber que alguém se foi embora. Temos também de saber quem ficou. E porquê.

Convivemos com a pressão de ser humildes desde o começo da nossa carreira, das nossas vidas. Se enunciamos um facto, é auto-elogio. Se dizemos que está mal, é puro queixume. Agora que saltámos um pouco do nosso microcosmo, é frustrante constatar que a realidade não é assim tão diferente da que temos vivido, enfiados no nosso nicho, se quiserem. No post do Tordo (que vai para sempre ser a boa/má referência deste blog) muitos me acusaram exactamente de ao expor a minha realidade, cair na falta de humildade. Não é a primeira vez que tal me acontece.

Escrevi durante anos na revista de Heavy Metal Portuguesa Loud! Desisti da minha coluna lá porque a maioria dos leitores já pensavam que eu usava o espaço apenas para promover a banda, não criando dialética. Escrevo sempre do ponto de vista de estar numa banda. É o que faço há já metade da minha vida. É o meu ponto de vista,a minha experiência, o que me faz viver, viajar, trabalhar. O meu assunto. Como poderia eu escrever partindo de outro ponto de vista?

Por outra, se os Moonspell tocam e se coisas boas, que resultam de trabalho, estratégia e timing, nos acontecem, devemos (ou deve alguém) escondê-las a sete chaves no baú da humildade, do pudor? Devem os nossos sucessos, seja os de quem for, estarem dormentes e silenciados, até por nós, por vergonha de falarmos positivamente, com orgulho e vigor ? Será que por cá nunca se ouviu falar de exemplo positivo, de histórias inspiradas, do mérito de vencer? Temos sempre de estar ao lado dos humildes? Serão eles bons exemplos para a nossa vida? Ou apenas figuras castradoras que nos mandam para baixo? Inimigos do nosso bem-estar?

Há já uns dez anos fui às festas da cidade de Loures ver uma banda de que eu gostava bastante nessa altura. Tinha regressado de uma tour, já não me lembro muito bem de onde, e embora ainda andasse a juntar as peças do meu regresso, vi o concerto e fui dizer olá ao camarim. Fui bem recebido e alguém me perguntou o habitual, como estás, como está a banda? Sem lhe fazer uma descrição detalhada do que andávamos a fazer, disse o que tínhamos feito etc. conversa normal entre músicos, colegas de profissão. A conversa ficou por aí. Cá fora entre dois contentores que serviam de camarins, esse mesmo músico fumava um cigarro e dizia à miúda da banda: "está aí o gajo dos Moonspell, a gabar-se de que toca lá fora patati patata..." Eu retirei-me de imediato. A banda, essa, já não existe.

Tem sido esta a história da minha vida enquanto o atrevido que sou, que gosta de fazer as coisas bem, sem desculpas. Que tem opiniões e telhados de vidro, que tem orgulho no que faz, que gosta de partilhar o que de positivo tem a sua experiência, e por aí fora. Se falar de nós próprios, através das nossas coordenadas e contexto é cair no auto-elogio, porque escrevem as pessoas nos jornais, porque opinam nas televisões? Porque acham que os outros são parvos, menores... Porque é que a opinião paga é melhor que a amadora?

Imagine-se a cena: Portugal tem uma filha casadoira. Diversos pretendentes a querem desposar. Um é rico e produtivo. Entra na sala e faz com que a sala pare, com que a noiva suspenda a respiração. Outro é um inventor de coisas práticas e bonitas. Outro ainda é um homem belo e viril, que dará descendência forte e robusta. Ao canto da sala, coberto por um manto está um homem que não se destaca, é apenas humilde e como tal controlável. É esse o escolhido.

Se calhar devia ter estado calado quando escrevi sobre a emigração do Tordo, se calhar sou apenas um pateta metálico que se tentou meter num campo onde já outros pastam e cobrem com fartura, se calhar o que faço não tem assim tanta importância mesmo e mais vale um asilo cultural na mão que a vitória dos gabarolas como eu que querem mesmo fazer alguma coisa mais do que constatar o óbvio.

A vidinha confortável, silenciosa, e humilde não é para mim. Gosto de fazer barulho. Desconfio de gente humilde. Gosto de gente de peito feito e que andem de pé e não de joelhos.

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03
Mar14

Em cada esquina um amigo

por oladolunar


Já não.

Tirei estes dias para analisar o que aconteceu. Fui ao parque com o meu filho. Brincámos horas debaixo de um Sol que não quis aparecer enquanto estive nos EUA. Nem na California, nem na Florida, em parte alguma. Apenas um manto branco pelo qual o nosso autocarro deslizava e comia milhas atrás de milhas. Por isso, aproveitámos. Agora chove. Também escrevi outras coisas porque nem de só de celeuma vive o espírito. Poesia, sobretudo. Pensei na vida, nos Moonspell e meti na fila este blog e todas as reacções ao mesmo. As boas, as más, as péssimas porque tudo é aprendizagem. Noutras circunstâncias, talvez fosse este o último post, mas isso não irá acontecer. O facto do meu post sobre o Fernando Tordo se ter tornado objecto de acesa discussão em muitos meios, e o de ter posto muita boa e má gente a pensar, a furar, a desenterrar teorias, foi, talvez, surpreendente. Só me resta continuar e tentar, talvez ingloriamente, defender uma classe que, sem qualquer sombra de dúvida é vista por muita gente como inútil, aldrabona, e encostada. Isso é um facto do qual já ninguém me conseguirá desconvencer.

Pedindo já perdão pela generalização, e recorrendo a uma "estatística" alimentada por toda a gente que pegou na figura do ajuste directo (que expliquei mal, mea culpa, mea maxima culpa)- para dizer que as minhas palavras são apenas queixas e que também nós com os oito concertos públicos em 3 anos, nos tornámos um gordo fardo para as finanças do Estado-estou convencido de que muitos Portugueses não gostam de nada. Em absoluto.

Não gostam de cá estar. Não gostam dos seus artistas. Dos seus pares. Do ar que respiram. Não gostam de mim, de ti, do Fernando Tordo. Não adianta explicar que o concerto das festas de Lisboa, por exemplo, empregou meios e pessoas (quase uma centena, entre técnicos, convidados, agentes, catering, PA, Luzes, pirotecnia) que tiveram se ser obviamente pagos; é inútil o facto de continuar a bater-me pela noção de que o ajuste directo é, talvez, uma palavra feia para definir uma simples contratação e as autarquias (que nos marcam muito pontualmente) um cliente como qualquer outro (confiando que toda a gente que me acusou, recusaria um trabalho oferecido pelo Estado); todos os argumentos que são válidos esbarram numa teimosia retrograda e intolerável. O ajuste directo é, para estes haters, um pacto obscuro,por debaixo da mesa, apesar da sua obrigatoriedade pública e visível e todas as suas condições e retorno em forma de impostos e de criação de emprego qualificado. Não há cura possível para a burrice.

Alguns Portugueses vêm as coisas conforme lhes convém, desde que consigam, segundo eles, provar que o vizinho do lado está a chular e a parasitar, fazendo tábua rasa de tudo quanto faz sentido, para enaltecer essa paranóia que se instalou e que, para mim, acaba por ser tão perigosa e contributiva para o estado da nação como os políticos que fazem alguns emigrar ou desistir. Convenço-me até que dormem melhor à noite, que a sua frustração diminui agora que nos "caçaram" e apanharam em contramão.

Muitos Portugueses estão desconfiados de tudo e disparam em todas as direcções e fui um alvo porventura fácil.Pus-me a jeito. Mas não faz mal, nem me quero estar a vitimizar por causa disto. Não é a primeira, nem será a última vez. Eu continuarei a escrever e a dizer o que me vai na alma, com mais ou menos rigor, e continuarei a trabalhar com a banda para sobreviver da melhor e mais independente maneira que sabemos e que nos tem garantido, com esforço, uma carreira que pode não ser totalmente absorvida pelos ressabiados online, mas que existe e que vai crescendo, tal como disse no post, sem o favor de estarmos cobertos por uma rede que a crise pulverizou, matando os artistas que viviam exclusivamente nessa gaiola dourada, alheios à necessária reinvenção, à adaptação, com os pés no presente e os olhos no futuro. Tive pena que muita da discussão se resumisse a um julgamento público, desenterrando números, fazendo aritmética maldosa, tentando cobrir de lama o meu nome, o nome da banda e de todos quanto me são próximos.

Ainda assim, valeu a pena. Nada como tirar esta radiografia e estar seguro de que uma parte nada saudável dos nossos conterrâneos ainda acham que correr, investigar, escrever ou cantar, não é uma profissão séria. Nessas mentes, pelos vistos, nada há como um patrão, para mandar em nós, um patrão do qual nos vingamos porque telefonamos aos amigos, mesmo quando não há nada para dizer, do telemóvel da firma. Não estamos tão longe quanto pensávamos do obscurantismo antigo, o 25 de Abril trouxe-nos muita coisa mas não o esclarecimento e o respeito pela actividade liberal, e se os decisores políticos não consideram a cultura como um valor acrescentado e representativo do País, podemos verdadeiramente culpá-los? Afinal são (quase) como toda a gente nessa terrível (des)consideração pela nossa classe.

Já estive em diversos lados e já passei por diversas situações que o comum anónimo tão lesto em apontar o dedo, meteria o rabinho entre as pernas e fugiria para depois, de uma distância segura, mandar umas bocas. Por isso não estou intimidado, nem me aflige muito que pensem que sou um chulo, um vereador sem pasta que anda por aí a mendigar atenção e a chupar nas veias de um sistema moribundo. Quem andou a desenterrar mentiras é para mim nada mais que outra ovelha no rebanho, tão activo na maledicência e calúnia mas que, se por um acaso se visse no olho da tempestade -um ser tão obediente no seu local de trabalho mas tão fleumático ao almoço com os colegas no Pans & Company do shopping local- não saberia para onde se virar, tal seria o pânico.

Custa-me traçar este retrato mas apenas usei as cores da paleta que me deram. E é esta a verdadeira crise: a desunião, a desconfiança, o arrastar do nome por uma lama imaginária, a construção ao minuto de vários maus da fita para desculpar as nossas próprias insuficiências. Esta semana eu, há uns meses a miúda que quis a mala, todos os dias a Rita Pereira, que segundo um "especialista" tem curvas a mais(!!!- go Rita!). Esses Portugueses não têm desculpa, e o País estaria bem melhor sem eles. Essa é a minha convicção: abrir espaço para, dar voz a, e afastar da vez da nossa vida os caranguejos que nos puxam para dentro do balde quando tentamos subir e alcançar a luz.

Quase como por um reflexo condicionado, o Português difama. Sente-se bem, sente- se coberto de razão. Pede um bom vinho ao almoço no Chinês e discorre sobre os filhos da mãe dos queixinhas dos artistas, dos atletas, dos criadores, enfim de todos aqueles que não se contentaram em passear os livros na universidade e com o facto consumado de ir trabalhar com o papá para um banco, para uma companhia de seguros, para algo que na verdade não queriam, um espinho na garganta que aliviam com shots de má-língua, verbosidade e ódio.

Em todo o caso, estou para isto e para muito mais, para defender a minha classe desses puritanos. Para explicar que facturar não é receber ad nauseam se tal for preciso; para dizer que se emigramos a responsabilidade final é nossa como tantos emigrantes anónimos gentilmente nos explicaram, e que se ficarmos também o é .Estas pessoas que me mostraram os dentes, não me interessam para nada. Há gente bem melhor. E para esses continuarei a visita guiada às minhas ideias e convicções que não podem ser consultadas num site do Governo, que não irão ser destruídas pela mesquinhez, e que, com a melhor das intenções, se destinam a valorizar um país, uma história, uma cultura que muitos dos seus filhos simplesmente já não merecem.

Até já. A vida segue dentro de minutos.


PS: Activei a moderação de comentários. Como viram ainda aprovo muitos comentários desfavoráveis porque penso que se enquadram no espirito de discussão que quero promover através deste blog. Por outro lado, não quero dar espaço a psicopatas, haters e falsários. Acho que todos concordarão que tais pessoas não nos levam a lado algum.

PS2: Em alguns comentários acusam-me de deslealdade perante os meus colegas de profissão. Devo dizer que não é bem assim. Só nunca fui um grande adepto do "nacional-porreirismo" entre os músicos Portugueses, que na frente são todos abraços, mas que, pelas costas, afiam as facas. Não gosto de Hip-Hop, não gosto dos Buraka. Estou no meu direito e ao dizer isso abertamente não estou a ofender ninguém. Não ponho em causa o trabalho deles ou do estilo mas sou crítico perante algumas coisas e tenho direito, como toda gente, a ter preferências. Tenho muito amigos na cena musical Portuguesa mas sou eu que os escolho. Só para esclarecer.

PS3: Finalmente e bem, alguém lembrou o selo dos CTT e o prémio da SPA como exemplos de homenagens aos quais junto um louvor da Junta de Freguesia da Brandoa o ano passado. Não querendo ser ingrato, a colecção dos CTT homenageava e ilustrava o Rock em Portugal e, sem dúvida, termos sido incluídos é motivo de orgulho e só temos de agradecer aos Correios em Portugal e ao Luis Filipe Barros. Quanto à SPA e à JFB, gostaríamos que os primeiros tivessem sido mais capazes de nos integrar e prestar contas com transparência e solidez, não nos "perdendo" como aconteceu para a sua congénere Alemã (a GEMA). Quanto à JFB, gostaríamos que tivessem consultado a sua assembleia popular antes de mudar o nome da freguesia que nos viu nascer para Encostas do Sol, numa tentativa absurda de contornar o estigma dos subúrbios de Lisboa pela adopção de um nome mais afável, apagando história, identificação, consenso. Aceitámos ambas as últimas in absentia, fica a nota, não quisemos ser mal-educados mas se fosse hoje, pensaríamos duas vezes.

PS3: Last but not the least, um sincero e emotivo agradecimento ao Henrique Raposo pela sua coluna no EXPRESSO de dia 1 de Março. Como lhe disse, "também é para estes momentos que vivemos". Se me queixava de falta de homenagem, eis que um irmão me mete o dedo nos lábios e me remete a um respeitoso silêncio. Obrigado.

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26
Fev14

Milionário à força

por oladolunar



Parece-me que descobri, finalmente, como tornar ferro em ouro. Criei um blog há dois ou três dias e fiquei milionário. Na cabeça de alguns,pelo menos. Fartei-me de explicar e clarificar conceitos, aproximando-os da realidade mas em vão. Mexi no ninho das vespas e poderia ter-me picado se tivesse a carapaça menos dura. A cabeça essa é quase de Metal. Fiz 8 concertos nos últimos 3 anos em Portugal, contribuindo, talvez, para a necessidade de intervenção da Troika em Portugal, já para não falar dos meus amigos que são donos de Portugal e multimilionários sem eu alguma vez ter reparado. Emiti uma opinião que é o mesmo que atacar e ferir de morte alguém. Até versos psicopatas me fizeram. Obrigado pelo retrato tão feio de um país tão bonito.

Não ficaremos por aqui mas foi, sem dúvida, esclarecedor. Não ficaremos todos amigos, nem viveremos felizes para sempre mas a lição de maledicência engarrafada em palavras, a teimosia a qualquer preço e a aritmética dos frustrados permite-me saber melhor em que país vivo. Felizmente só apareço em público para tocar e delapidar os contribuintes com a minha arte barulhenta 2,6 vezes por ano. Assim não tenho de vos mentir tanto.

Resta-me agradecer pelo reality-check e por me terem ajudado a perceber porque emigram as pessoas. Perto de muitos de vocês os nossos políticos são até boa companhia. Portugal é isto. Mas também é aquilo. E se estamos onde estamos é devido à nossa mentalidade que se baseia na mais alta desconfiança, desrespeito, manipulação e mentira, qualidades que muitos dos nossos políticos esbanjam, e que muitos dos que arrasaram aqui alguma tentativa de discussão, também espalham vaidosamente pelas ruas, pelos cafés, pelos blogs. Mas nem assim me vou embora pessoal, vou só tirar uns dias para respirar e começar a abordar novos temas.

What a ride!

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26
Fev14

Ajuste directo

por oladolunar
Existe no nosso país um círculo, que nada tem de virtuoso, alimentado pela falácia, ignorância e pela convicção de que todos estamos pior do que o vizinho do lado. Uma espécie de inversão do ditado que diz que a relva é sempre mais verde do outro lado da cerca.Aqui, há sempre mais lama e ela é sempre mais negra no nosso quintal. Outra coisa, de que são sintomáticas algumas das reacções ao meu post anterior, é que cada vez que alguém emite opinião em Portugal, esta é imediatamente rotulada como uma espécie nova ou repetida de queixume, nivelando por igual quem opina, através de uma óptica de pobreza quase fascista. O facto de haver sempre alguém em pior estado do que o sujeito ou o objecto do assunto é, para muitos, razão suficiente para a interrupção total do pensamento e da sua comunicação, algo, para mim, profundamente tacanho e atroz. Se essa lógica tivesse imperado, não teriam existido pensadores, apenas um grande formigueiro humano, procurando sustento e não admitindo falatório.

Sabia perfeitamente que ao iniciar este blog com este tema faria com que essas engrenagens funcionassem, pois, como pouca coisa em Portugal, elas são infalíveis no seu superior juízo e formação. Em todo o caso, e como houve ilações um pouco obscuras, queria tentar esclarecer um pouco certos utilizadores, sabendo perfeitamente que sem contar com a sua boa vontade, qualquer argumento será obsoleto. Gosto, porém ,de fazer coisas daquelas que valem o que valem e deixar esse valor ao critério de quem as lê.

Primeiro que tudo, parece-me que uma notável percentagem de quem aqui reagiu, possui um conhecimento acima do normal de como se opera no mundo da música e principalmente dos contratos entre as autarquias e as agências que vendem concertos. Faço já questão de concordar que porventura terão existido promiscuidades, como em qualquer negócio, mas, como em tudo na vida, é errado tomar a floresta pela árvore. O que sei de certeza é que músicos como eu e muitos outros, são permanentemente julgados através de uma perspectiva errada e falaciosa. Não vou perder tempo a explicar pura aritmética àqueles que ainda confundem facturar com receber, e que, munidos sabe-se lá de que omnisciência, eliminam todas as despesas que um músico ou uma banda possa ter para montar um espectáculo. Tal ignorância deve-se manter santa, imaculada e estúpida.

Mas tomemos um exemplo de uma actividade ou emprego qualquer cujos serviços são requisitados por uma autarquia. Há um contacto que foi antecedido de uma reunião entre responsáveis que por decreto popular ou administrativo, têm conhecimento da área que pretendem contratar. Em algumas ocasiões, até, a empreitada é de tal monta que vai a concurso público e é, por tal mecanismo, contratada. No caso dos concertos nem sempre isso acontecerá, obviamente. É para fazer essa triagem que existem vereações culturais, organismos como a EGEAC e por aí fora que operam fora da lógica do ajuste directo e fazem pura e simplesmente contratações que os agentes/bandas aceitam ou não, sendo em todo o mundo conhecido, que tanto Estado como particulares contratam artistas que estão no mercado, fazendo depois a utilização dessa contratação conforme entenderem. Claro que com dinheiro público a coisa pia mais fino, e muitas vozes se levantam, mas, na verdade, boas ou más, pertinentes ou gastadoras, só com uma má-fé incrível se pode confundir o charco imundo dos ajustes directos com empreiteiros, empresas de construção, concessionárias de auto-estradas e por aí fora com um concerto dos Amália Hoje em Albufeira. Meter tudo no mesmo saco? Não, obrigado.

Se um pasteleiro fizer bolos para abrilhantar uma recepção numa Câmara, ninguém, nem ele próprio, se questiona quem vai comer esses bolos, se vão sobrar, se vão ser gratuitos. Se for um artista musical a ser contratado, as pessoas puxam de uma preocupação ética que não se lhe reconhece , infelizmente, noutras situações meramente apoiadas no preconceito completamente assumido (até por vários comentários aqui deixados no blog) de que a Arte não é uma forma de sustento, evocando os tempos dos saltimbancos a comerem as sobras dos banquetes e a serem apedrejados pela plebe. Quer se queira, quer não a maioria dos Portugueses vê os artistas como parasitas do sistema, sem direitos a reivindicar ou a ter um espaço positivo na sociedade.

Muitas vezes os próprios artistas, no seu medo e vergonha de se exporem, ou no seu pensamento de que somos um bocadinho mais do que o homem da Carris, contribuem para esta maldosa mistificação, por isso, gostem ou não, fui e serei claro acerca das minhas ideias. Ser contratados por uma autarquia envolve um processo muito mais longo de negociação, com regras apertadas de orçamentos, facturação e pagamentos. É simplesmente triste que perdure a ideia do Presidente da Junta a pagar em dinheiro vivo ao artista, sem recibo, claro, com as mãos untadas de frango assado. Estamos em 2014 e existe uma rede competente de profissionais da música, caso ainda não se tenha reparado.

Outro exemplo, nas raras vezes que os Moonspell foram contratados por uma autarquia (e já agora, gostaria de ver esses documentos públicos de ajuste directo connosco, já que estão disponíveis) fizemos sempre a sugestão de ser cobrado um bilhete, pelo menos simbólico, já que pensamos que é um mau hábito as pessoas não pagarem nada para ver um concerto e que isso prejudica e muito a venda de bilhetes para concertos pagos. Quase nunca, ou nunca, foi esta sugestão aceite mas lá está compete-nos a nós regularizar esta situação? Em Portugal, concordo, este hábito está inscrito profundamente nas expectativas das pessoas e não minto ao dizer que há um público que paga (e os Moonspell tem mais representatividade junto deste que do outro) e outro que não paga mas isso define-se pelo interesse que cada um dedica à música e à Arte e aí sim entra a competição saudável para vender bilhetes e discos que se calhar, para sermos íntegros, devíamos simplesmente dar. Ah,esperem... os discos já são dados, ou melhor, roubados da Internet, tinha-me esquecido. E os Museus, uma rede sustentada publicamente não seriam um melhor exemplo de tendência para a "gratuitidade" que um espectáculo musical?

Adiante com outro esclarecimento: fui bem claro ao dizer que Arte é Independência. Para mim isto não é dizer que o Estado não deve fomentá-la. O que quero dizer é que os artistas, se se querem dedicar à sua Arte por completo, têm sempre de equacionar uma autonomia ou retorno financeiro, aplicando o mesmo rigor à sua criação e à maneira como a vai comunicar publicamente. Existe sempre um modo de chegarmos ao público e fazer com que se interessem pelo nosso trabalho e queiram contribuir financeiramente para ele. Falho redondamente ao pensar o que pode haver de errado com tal situação que faça com que tanta gente encare com escárnio esta transação.

Resumindo e antes de avançar com outros assuntos, devo apenas dizer que a minha opinião não mudou, apesar de alguns esclarecimentos. As convicções e as observações não se esfumam pelo rebate alheio. Vivi de perto (não envolvido) com muito "subsidodependentes" e vi a facilidade com que desbaratavam oportunidades e dinheiro, por terem a sobrevivência garantida. Não estou, nunca estive de acordo com o modo como os políticos tratam as Artes, mas, para mim, ser artista é procurar alternativas e nunca, mas mesmo nunca, contar com que os oligarcas entendam e paguem pelo que faço. Se há um sistema, os artistas obrigatoriamente estarão contra e não dentro desse sistema.

Não me parece também que tenhamos estar sempre a bater a pala aos que ajudaram a fazer Abril porque simplesmente nascemos depois. Sempre pensei que as liberdades de Abril eram para utilizar com gratidão e não para criar novas figuras tutelares. Não sou um chorão, embora goste dessa árvore e devolvo com total desprezo os ataques e bocas pessoais, essas sim motivadas por invejosa baixeza.

O mundo continua a girar e Portugal com ele. Não há tempo a perder e é altura de avançar. Podemos ficar a especular sem conhecimento de causa, a ser simplesmente raivosos e mais uma vez a especular onde as mulheres dos outros compram a roupa, podemos chamar queixinhas e chorões aos outros e depois massacrar os nosso colegas de trabalho com as amarguras das nossas vidinhas, podemos reduzir os artistas a meros caprichosos que devem morrer na miséria pois ganhar dinheiro da Arte é prostituição, podemos ser parvos mesmo quando tentamos, com tanta convicção, não o ser. Ou podemos pensar e tentar aceitar que outros pensem e façam diferente e que tenham orgulho manifesto em sobreviver para um dia tentar viver em plenitude, sem vergonha do que somos, do que ganhamos, do que pagamos, do que bebemos e comemos, dos nossos carros e casas, sem vergonha do que sou que é mais do que a soma das desfeitas que me fizeram. Pode ser horrível emigrar aos 65. Não menos horrível seria desistir aos 40.

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